Bravos cervejeiros: conheça quem aposta no cultivo de lúpulo no Brasil

Clara Campoli | 21/07/2019 05:20:36

A riqueza de biomas no país exige manejo específico da espécie, que atualmente é importada pelos fabricantes de cerveja

Raimundo Sampaio/Esp. Metrópoles

Um dos elementos mais importantes da cerveja, o lúpulo, ainda é produzido de forma bastante artesanal no Brasil: a maior parte das cervejarias importa o ingrediente da Europa ou dos Estados Unidos, processado em formato de pequenos cilindros, conhecidos como pellets. Em seu estado mais fresco, a flor em formato de cone pode ser usada diretamente nos tanques de fermentação. É ela que confere à bebida sabor e, a depender do estilo, amargor e aroma.

“O lúpulo que chega do exterior é de safras passadas. As fazendas têm contratos a honrar e, quando colhem as flores, esses clientes são a prioridade. O que sobra disso vai para o mercado interno deles, e o que sobra depois disso tudo vem, por exemplo, ao Brasil. Hoje, em julho de 2019, você acha lotes da safra de 2017, alguns de 2018. É um pellet que já perdeu toda a parte aromática da flor, devido ao tempo que levou até ser exportado”, comenta Alexander Creuz, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).

A planta é uma trepadeira original do Hemisfério Norte e depende de longos períodos de incidência solar para crescer bem – na Alemanha, por exemplo, os dias de verão podem durar até 16 horas. Se as terras tupiniquins não apresentam períodos tão longos de luz, sol é o que não falta. Não seria, então, uma questão de manejo da cultura? A resposta, segundo os 103 associados da Aprolúpulo, é positiva.

“É possível fazer uma analogia com o vinho: a uva só era plantada no frio, e dizem o mesmo sobre o lúpulo. Não é bem assim, tanto que as uvas irrigadas do vale do rio São Francisco têm safra duas vezes por ano. O segredo é descobrir o manejo específico de cada cultivar, conhecer bem a composição do solo, encontrar a adubação perfeita”, descreve Pablo Tamayo, produtor de lúpulo do Lago Norte, em Brasília.

O brasiliense encontrou no cultivo da flor uma maneira de acompanhar de perto o crescimento dos filhos e abandonou seu emprego formal em 2017 para se dedicar às flores verdes. Hoje, a Tamayo Hops conta com 60 pés da planta: uma escala modesta, mas de alta produtividade, visto que ele consegue realizar três colheitas por ano. “Meu negócio era, a princípio, cultivar algum produto orgânico, eu não era cervejeiro. Comecei a fazer cerveja em casa e decidi ver como meu lúpulo se saía”, lembra.

Segundo Alexandre, não é possível, ainda, dizer qual região brasileira teria clima ideal para o cultivo. “Os nossos plantios, de maneira geral, são muito recentes. As plantas ainda estão se estabelecendo no solo, a grande maioria ainda não atingiu a maturidade produtiva. Ainda é difícil falar se um estado tem bom terroir, mas com certeza cada região brasileira vai ter uma característica diferenciada que vamos descobrir com o tempo”, avalia Alexander, defensor do lúpulo nacional como vantagem competitiva aos cervejeiros nacionais.

Para Heide Seidler e Andreas Nagl, proprietários da loja de insumos para cerveja Candango Bräu, usar lúpulo próprio – mesmo que para parte da receita – atingiu status de exclusividade entre os cervejeiros brasileiros. “Tem gente fabricando e usando as próprias flores na cerveja, virou marketing”, brinca Heide. “Acredito que também existe uma questão sentimental de usar o próprio lúpulo”, pondera Andreas.

 

Jornalista: Clara Campoli