Análise: pela educação, as ruas mudam de cor e põem Bolsonaro à prova

Eumano Silva | 16/05/2019 05:05:13

Com menos de cinco meses do presidente no cargo, o vermelho das bandeiras ocupou o lugar do verde-amarelo em grandes manifestações políticas

Andre Borges/Especial para o Metrópoles

Desde as manifestações de 2013, as bandeiras vermelhas haviam perdido a hegemonia das ruas para as verde-amarelas. A onda de protestos iniciada há seis anos chacoalhou a Copa do Mundo no Brasil, ajudou a derrubar a petista Dilma Rousseff da Presidência da República e levou o capitão Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

Nessa quarta-feira (15/05/2019), o pêndulo ideológico pendeu de novo para a esquerda. A reação das escolas aos cortes de verbas para a Educação tingiu as 210 cidades brasileiras com a cor dos derrotados nas eleições de 2018 (em destaque, foto do protesto em Brasília).

O fato de enfrentar uma mobilização de tamanha magnitude com menos de cinco meses no cargo representa um alerta para Bolsonaro. É incomum, em tempo tão curto, um presidente atrair a insatisfação de um dos setores mais representativos da sociedade.

Desde a redemocratização, nenhum presidente desgastou-se tão rapidamente quanto Bolsonaro. José Sarney enfrentou as ruas no protesto conhecido como “badernaço”, no final de 1986, quando exercia a Presidência havia um ano e meio. As manifestações que embalaram o impeachment de Fernando Collor de Mello começaram dois anos depois da posse.

Itamar Franco não teve oposição nas ruas. Fernando Henrique Cardoso amargou manifestações contrárias significativas apenas no segundo mandato. Luiz Inácio Lula da Silva passou pelo Palácio do Planalto por oito anos sem sofrer o peso da população contra ele, apesar das denúncias do mensalão.

Os protestos contra Dilma Rousseff tomaram as grandes cidades no terceiro ano de governo, em 2013. Michel Temer assumiu o Palácio do Planalto já desgastado pelo traumático processo de impeachment da antecessora. As manifestações mais significativas contra o emedebista tomaram as ruas no segundo ano de governo Temer, quando o Congresso julgou um pedido de afastamento.

A revolta precoce contra o governo Bolsonaro não é apenas pelo corte de 30% nas verbas da educação. Esse feito só se materializou porque Bolsonaro e sua equipe, desde o início do governo, empenharam-se em desqualificar professores e estudantes, especialmente, universitários.

Ataques

Em diferentes momentos, o presidente se insurgiu contra o ambiente acadêmico. Em um tuíte do dia 11 de março, por exemplo, ele disse que esse meio é “massacrado pela ideologia de esquerda”, a “formação dos cidadãos é esquecida e prioriza a conquista de militantes políticos”.

Em viagem aos Estados Unidos, nessa quarta-feira, Bolsonaro se voltou especificamente contra os estudantes que tomaram as ruas para protestar contra seu governo. “São uns idiotas úteis, uns imbecis”, afirmou.

O descaso com o setor ficou evidente desde a formação do governo. O primeiro ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, embora acadêmico, mostrou-se inábil e incompetente. Caiu depois de cem dias no cargo.

No lugar de Vélez, assumiu o atual titular da pasta, Abraham Weintraub, dono de acentuada antipatia pelas universidades. Em um mês como ministro, ele ameaçou cortar verbas de escolas que fizerem “balbúrdia” e criticou a presença de “sem-terra” e “gente pelada” nos campi.

Estratégia arriscada Com tanta provocação, compreende-se melhor o sucesso da mobilização de professores, estudantes e servidores da área de educação. Pelo histórico do setor, essa é uma estratégia arriscada para Bolsonaro.

Desde a ditadura, os estudantes estiveram na linha de frente de algumas das maiores manifestações políticas do país. Os protestos de 1968, a greve da Universidade de Brasília de 1977, a campanha das diretas-já em 1984 e os “carapintadas” contra Collor em 1992 são os melhores exemplos.

Nessa linha, caso queira reduzir as turbulências de seu mandato, recomenda-se a Bolsonaro mais seriedade no trato com as universidades. A menos que goste de ver as ruas coloridas de vermelho.

Jornalista: Eumano Silva