Desarticulação na Câmara e povo nas ruas põem Previdência em xeque

Carlos Estênio Brasilino | 16/05/2019 05:05:10

Declarações do presidente, como a de os que protestaram pelo país não passam de “idiotas úteis”, agravam o quadro

Igo Estrela/Metrópoles

Milhões de pessoas nas ruas em protesto contra o bloqueio de verba na Educação e uma relação esgarçada com o Congresso Nacional. Este é o saldo de um dia para o governo Jair Bolsonaro (PSL) esquecer. Porém, o prejuízo pode ser maior. A julgar pelas manifestações vistas em 210 cidades do país nesta quarta-feira (15/05/2019) e o verdadeiro clima de “barata-voa” entre os governistas, a principal bandeira bolsonarista, a reforma da Previdência, pode estar em xeque.

Há um consenso em Brasília: políticos temem o povo nas ruas. A temperatura de manifestações como as que se viram nessa quarta é capaz de mudar o humor de muitos parlamentares. E isso em um momento em que projetos importantes e medidas provisórias do Planalto estão na fila de espera do Congresso.

Mas para navegar em águas calmas no Legislativo, o Executivo necessita de algo que o governo Bolsonaro definitivamente não tem: articulação política. E tamanha desarticulação impede que o governo consiga amealhar os votos necessários para garantir a aprovação da reforma da Previdência no Congresso. O que se vê, no Legislativo, são os dias passando e os trâmites em tono da proposta do governo se arrastando.

Um cenário pessimista para o governo Bolsonaro, que apostas todas as fichas na aprovação da chamada Nova Previdência – o que poderá ser o diferencial até o final do mandato de Bolsonaro.

Declarações do presidente, como a de que a maioria dos que foram às ruas pela educação não passa de “idiotas úteis”, e de integrantes da cozinha palaciana, como o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, ao afirmar que os líderes partidários que anunciaram a suspensão no corte das verbas para instituições de ensino querem luz da imprensa, agravam o quadro, e ameaçam não só a Previdência, como outros projetos do Executivo federal.

Se a relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso já vivia em turbulência constante, certamente esses últimos dias não serviram para desanuviar o ambiente. Outro consenso em Brasília: parlamentares não demoram a dar o troco.

Ao desmentir deputados aliados e acusá-los de buscar holofotes, o governo age esticando a corda na Câmara e pode perder o pouco de apoio que tem no Legislativo.

A troca de farpas e desmentidos, na opinião do líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO), acabou por derrubar uma construção que, em sua opinião, havia sido exitosa no sentido de aproximar alguns parlamentares do governo.

Disposição em apoiar A própria reunião com Jair Bolsonaro, na qual os deputados sugeriram o fim dos cortes na educação e disseram ter presenciado a ligação do presidente ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, era, de acordo com Vitor Hugo, um momento de êxito, haja visto que os deputados convidados demonstraram disposição em apoiar o governo.

“Apesar da convocação do ministro [Weintraub, para explicar na Câmara os cortes na Educação], tinha sido um dia muito feliz para a articulação do governo aqui na Câmara, em termos de aproximação dos partidos”, defendeu Vitor Hugo.

“No final, disseram que era boato, que não aconteceu. Só atrapalharam. Passei o dia apagando incêndio também”, reclamou, numa alusão à líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, que, nesta quarta-feira (15/05/2019), afirmou, no Twitter, que o contingenciamento na Educação será mantido e afirmações ao contrário não passam de boatos.

MPs podem caducar O momento é delicado. O governo Bolsonaro enviou para o Congresso cinco medidas provisórias. E terá que se esforçar para que elas sejam votadas em tempo hábil, ou seja, antes que percam a validade.

Três medidas já trancam a pauta da Câmara e até o dia 3 de junho todas caducarão, caso não sejam aprovadas na Câmara e no Senado.

Foram vários os fatores que contaram para que a indisposição dos parlamentares em relação ao Executivo se formasse.

Um deles se refere ao comportamento do PSL, partido do presidente da República, que não conseguiu, na semana passada, impedir o desejo dos insatisfeitos de impor uma derrota ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, retirando da pasta do ex-juiz da Lava Jato o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Mesmo líderes mais governistas, que defendem a não interferência da Câmara e do Senado na organização do Executivo, prevista na Medida Provisória nº 870/2019, irritaram-se com o comportamento do governo e podem se alinhar à oposição para evitar que as votações ocorram.

Afinados contra Moro Uma dessas lideranças disse ao Metrópoles, em reservado, considerar que a desarticulação política do governo está longe de acabar e que os partidos do Centrão estão afinados para derrotar Moro.

Para isso, há dois caminhos possíveis: deixar a medida caducar, estratégia da oposição, ou aprová-la da forma que saiu da comissão especial do Congresso, devolvendo o Coaf para a pasta da Economia.

Ou seja: às lideranças governistas, resta irem para casa lamber as feridas. E pensar friamente em como recolocar o governo nos trilhos, pelo menos no que diz respeito à relação com o Congresso.

As ruas, como as cartas, não mentem jamais: se há um momento ideal para um freio de arrumação no Palácio do Planalto, esse momento é agora.

Jornalista: Carlos Estênio Brasilino