Presidente do ICMBio pede exoneração após crise com ministro

Agência Estado | 15/04/2019 17:35:18

Ricardo Salles ameaçou abrir processo administrativo contra servidores da instituição por eles não estarem em reunião com ruralistas

Marcelo Camargo/Agência Brasil

A decisão, porém, ocorre dois dias depois de uma reunião conturbada com ruralistas no Rio Grande do Sul. No sábado, 13, enquanto visitavam a região do Parque Nacional Lagoa do Peixe, no sul do Rio Grande do Sul, Salles ameaçou abrir um processo administrativo contra servidores do ICMBio por eles não estarem presentes à reunião na qual os dois estavam na cidade de Tavares. A sede do ICMBio responsável pelo parque fica na cidade vizinha de Mostardas, a 29 km de distância.

Em entrevista ao Estado, em condição de anonimato com medo de represálias, um dos funcionários disse que eles não foram convidados para tal reunião e que o encontro não estava previsto na agenda do ministro na região. A ideia era que ele, depois de visitar a sede do órgão, faria um passeio pelo parque. Segundo este funcionário, porém, depois de ficar alguns minutos na sede, ele saiu do local sem dizer para onde iria.

Salles e Eberhard foram para um encontro com representantes de produtores e do agronegócio local e também de moradores do parque que ainda vivem na região, apesar de o parque ter sido criado em 1986. Após ouvir queixas do pescador Jair Lucrécio, que disse que o parque só fez o povo “sofrer e chorar”, Salles questionou se não havia ali nenhum funcionário do ICMBio presente. “Não tem nehum funcionário?”, disse na sequência.

“Vocês vejam a diferença de atitude: está aqui o presidente do ICMBio, Adalberto Eberhard, que, embora seja um ambientalista histórico, uma pessoa respeitada no setor, é uma pessoa que veio aqui ouvir a opinião de todos vocês, ouvir as experiências. E na presença do ministro do Meio Ambiente e do presidente do ICMBio, não há nenhum funcionário aqui, embora eles tenham nos esperado em Mostardas”, continuo o ministro, como pode ser observado em vídeo divulgado por participantes.

“Eu determino a abertura de processo administrativo disciplinar contra todos os funcionários por desrespeito à figura do ministro, do presidente do ICMBio e do povo do Rio Grande do Sul com essa atitude”, afirmou.

O ministro prosseguiu, dizendo que “o momento da perseguição às pessoas de bem nesse país acabou”. “Foi com a eleição de nosso presidente, Jair Bolsonaro. Com restabelecimento da segurança jurídica, do devido processo legal, do respeito a quem produz e quem trabalha, nós vamos recolocar o Brasil no caminho certo.”

Salles disse que a criação do parque foi importante para chamar a atenção para uma área que é sensível. “Mas em que termos nós vamos fazer a importante defesa do meio ambiente, da fauna, da flora, das aves migratórias, enfim, com uma espécie que vem sendo ameaçada no Brasil, que é o ser humano?”

Desde a manhã, o Estadão questionou o presidente do ICMBio sobre a situação a que os funcionários do ICMBio ficaram expostos no fim de semana, após as declarações do ministro. Ele também foi perguntado se concordava com a atitude de Salles, mas não respondeu ao pedido de esclarecimentos. A informação sobre o pedido de exoneração começou a aparecer por volta de 17h. Nem o Ministério do Meio Ambiente nem o ICMBio se pronunciaram até o momento.

Jornalista: Agência Estado